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A Pergunta sobre o ser nos dias da Hegemonia da técnica

Nesta época de acelerado avanço tecnológico enfrentamos um grande desafio, perceber a real transformação que a tecnologia impõe na formação da subjetividade, em outras palavras, responder como estamos nos transformando frente a esta aceleração e hegemonia da técnica.

Na mitologia grega encontramos a figura de Prometeu, este roubou o fogo dos deuses para presentear aos homens, dando inicio a primeira conquista tecnológica da humanidade. O mito de Prometeu aponta, mesmo que indiretamente, para o homem cuja existência e progresso dependem da capacidade de incorporar novas técnicas.

É oportuno salientar que neste contexto se entende por tecnologia todo processo oriundo de uma técnica, do domínio do fogo ao processo de formulação do alfabeto e da matemática, dos métodos de ensino até a psicanálise, da invenção da roda até as viagens no espaço. Todas as produções humanas oriundas de técnicas são por definição tecnologias.

É fato que a humanidade desde seu inicio, se constituiu dotada de capacidade técnica e através desta moldou suas necessidades. Ao adquirir novas técnicas surgem necessidades que impõem novas conquistas e a descoberta de mais técnica e esta promove novas necessidades, é assim, neste ciclo de necessidade e técnica que caminhamos para uma sociedade tecnologicamente avançada. Esta práxis tecnológica carrega consigo um problema que irá chamar atenção de cientistas e filósofos.

Albert Einstein certa vez afirmou, “Tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade.” Corroborando com esta observação encontramos a frase do filósofo francês Gaston Bachelard “Pelas suas técnicas prodigiosas, o homem ultrapassa, ao que parece, os contextos do seu próprio pensamento.”

Este possível descompasso na produção da técnica e na capacidade de absorção daquilo que é produzido, promove a necessidade de resposta para certos questionamentos. Como estamos transformando nossa humanidade? Em que estamos nos tornando? O que nos leva a escolher este caminho e não outro? Que futuro estamos realmente construindo? Para responder todas estas perguntas é necessário esclarecer uma questão fundamental que está ancorada na pergunta que visa esclarecer o que é o ser.

Para se ter claro a relevância das respostas destas perguntas é importante possuir mesmo que resumidamente, um panorama sobre a questão da práxis e sobre os temores fundamentais da humanidade, onde na perspectiva do filósofo Martin Heidegger, o homem busca equivocadamente evitar a frustração e a dor através da negação de sua existência finita, apontado para o infinito na tentativa de fugir de sua percebida e imutável condição temporal.
Martin Heidegger observa o fato de tradicionalmente a filosofia ancorar-se na percepção de ser, partindo da idéia de infinitude, onde o Ser que é finito é pensado através da concepção de infinito. Em sua obra Ser e tempo Heidegger dispensa a concepção de infinito e inaugura a percepção do homem confrontado com sua finitude, assumindo assim, o ser que constitui e é constituído na historicidade de seu tempo.

O Tempo entendido por Heidegger tem sua origem na contribuição do filósofo Emmanuel Kant, que em sua obra Critica da Razão Pura aponta para uma percepção de tempo que ocorre na estrutura fundamental da mente, tempo neste contexto é uma constante existencial pensado como categoria da subjetividade.
A relação do ser no tempo percebido em sua subjetividade contém implícita a percepção de sua degradação, tempo que se esgota, fim que se aproxima. Pensar meditativo é pensar sobre a existência, é contextualizar e com isso vivenciar a historicidade, é sentir e enfrentar a finitude que produz no ser pensante mal estar, frustração.

Em seu texto serenidade, Heidegger convida para uma reflexão sobre a essência do pensar, demonstrando a diferença entre o pensar da técnica e o pensar meditativo. O autor demonstra que o pensamento da técnica é aquele que calcula dividindo em partes superficiais, transformando tudo em uma perspectiva mecanizada, esquecendo o caráter humano existencial. Este modelo de pensamento é um ato de fuga que tenta ignorar a finitude e tudo é visto como peças que podem ser mecanicamente substituída em favor do prolongamento da existência, ocasião em que o homem torna-se robotizado e afasta-se de sua humanidade, assumindo-se como um conjunto de componentes onde o sentido se dá através do calculo mecanizado, pensamento que calcula.

É possível extrair como alerta o fato, que a técnica possui grande importância sendo parte constituinte da humanidade, não podemos nos desfazer desta habilidade, no entanto, é preciso urgentemente repensar nossa relação com este pensamento que calcula, através do exercício do pensamento meditativo, enfrentando o tema central da angustia que é o medo da vida que subitamente se apresenta com toda sua contingência, é o confronto com o Ser-possível que todos nós somos. Na angustia o ser vivencia a estranheza do mundo e da liberdade, podendo conter ao mesmo tempo angustia de mundo e angustia da liberdade.

O autor propõe iniciarmos nossa reflexão pela compreensão do Ser-em, cujo significado compreende em sua totalidade os termos Ser-no-mundo, onde o ser se encontra diante do mundo. Ser-com-outros, onde todo ser está sempre em relação com outros e Ser-diante-de-sí, onde o ser olha sempre em direção ao futuro constantemente providenciado. A complexidade do ser que se percebe e percebe o mundo ao mesmo tempo e de forma indissolúvel constituindo o Ser-em, é representado pelo termo dasein que significa o ser aí no mundo, em sua complexidade e totalidade existencial.

A morte se apresenta sempre à nossa frente como sendo a possibilidade da impossibilidade da própria existência, onde cada um tem de morrer a sua própria morte. Esta não é o fim da vida e sim o Ser-para-o-fim, não é a hora derradeira já que está dentro de nossas vidas justamente pelo fato de sabermos que iremos morrer.

Heidegger parece apontar para importância de assumirmos nossa responsabilidade sem que deixemos que nos roubem nosso poder de decisão através da alienação que carrega implícita a promessa de aliviar nossas angustias. É necessário o pensamento meditativo, pensarmos o ser e com ele nossa existência, nos aproximando assim, de nossa humanidade.
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