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Filme o lenhador e a exclusão como ferramenta de proteção social

A idéia de construir remete ao ato de atribuir uma margem ou delimitação permitindo assim uma melhor identificação daquilo que é construído.

Ao desenhar um objeto criamos as margens através das linhas que delimitam a forma e registram o que deve estar dentro e o que precisa ficar fora. De forma análoga é plausível admitir que toda construção ganha forma em perspectiva com uma margem ou delimitação, determinando necessariamente o certo e o errado, ou ainda, o normal do anormal.

Um filme que trata desta questão de forma competente foi produzido sob o titulo “O Lenhador”. A trama gira em torno de um presidiário que em liberdade condicional precisa encarar a sociedade, seus temores e assumir uma difícil escolha. Manter-se dentro da normalidade ou se deixar levar pelo impulso sexual predatório.

Este é um filme que fracassou em termos de bilheteria, acredito que em parte devido ao fato de romper com a regra já estabelecida em relação ao tabu da pedofilia e o fato de ser um filme em certa medida desconfortável.

A trama se desenvolve mostrando uma pessoa com conflitos, dificuldades sociais e buscando um meio de resolver seus problemas. Algo que é contrário à idéia vigente sobre os pedófilos cuja marca normalmente divulgada é a monstruosidade.

A perspectiva aplicada na trama segue uma vertente que perpassa pela psicologia humanista. No desenrolar das cenas existe uma nítida aposta no protagonista. Para cada ação negativa são mostradas também ações positivas deixando um clima de suspense.

Sem sinalizar qual será a escolha do protagonista a trama fomenta no espectador a impossibilidade de assumir uma postura rígida em relação ao personagem.

O clima depressivo do filme parece buscar de forma estratégica diluir a idéia de anormalidade, adicionando diversas ocorrências de abuso. A namorada abusada pelos irmãos, a menina abusada pelo pai, os meninos seduzidos por um outro pedófilo na porta da escola e o protagonista com seus conflitos.
Com tantos abusos não é possível ao espectador determinar um inimigo ou objetificar o que deve ser excluído. Ao retirar a possibilidade de aplicar certo determinismo o filme conseguiu passar uma sensação de indefinição. Vários espectadores na internet sinalizaram que ao final do roteiro tiveram a sensação de vazio, faltou alguma coisa.

A delimitação vigente onde a exclusão é a melhor ferramenta de organização social, bem como símbolo de justiça, ficou bem representada pelo personagem da secretária que busca de todos os meios se proteger através da tentativa de excluir o protagonista daquele grupo de convivência.

O clímax do filme surge quando em certo momento o protagonista se encontra sozinho com uma menina de 11 anos e torna-se evidente o maior problema contido na perspectiva humanista. A possibilidade das conseqüências negativas quando da aposta na liberdade de decisão do outro.

O filme demonstra com eficiência a idéia de que não há garantias, no entanto, aposta na honestidade como meio promotor da melhor escolha. Algo também difundido pelas psicologias de vertente humanista.
O filme não parece ter como proposta agradar, mas sim, mostrar de forma inteligente que não existe uma margem tão definida como a maioria de nós gosta de acreditar.

Uma das mensagens do filme parece alertar para o equivoco consensualmente aceito sobre a analogia comentada nos parágrafos iniciais deste texto.

Uma interpretação possível sobre este filme é que a delimitação da forma é algo pertinente para objetos, mas dificilmente se torna uma analogia eficiente quando aplicado na interpretação do humano. O roteiro parece apostar na construção de uma percepção de humano como sendo este uma existência contextualizada onde a honestidade assume papel chave.

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