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O Brasil e a cultura do sobrevivente

No Brasil somos um povo passivo aparentemente, que pouco interage com os problemas políticos, até arrisco comentar que, mesmo nas dificuldades individuais a maioria das pessoas assume uma postura passiva diante dos problemas. Nossa percepção empresarial e de empreendedorismo parece ser superficial e pouco comprometida em muitos casos.

Parece que este comportamento carrega um reflexo de nossa origem escrava e fruto do regime de repressão que nossa sociedade viveu durante a chamada “ditadura”. Aprendemos a sobreviver, mas sobreviver não é progredir.

No comportamento de sobrevivência o direcionamento do raciocínio, percepção e postura são voltados para soluções imediatas, sem uma estratégia para resultados de longo prazo.

Geralmente o sobrevivente vive preocupado em manter-se, não existe uma estratégia para qualidade de vida ou crescimento.  Como a preocupação é individual, o sobrevivente não costuma atuar ou organizar-se em grupos. Sofre muitas vezes de ansiedade aguda, estresse e  irritabilidade constante.

O próprio ato de jogar a culpa em outra pessoa ou evento é coerente com o comportamento do sobrevivente, precisar sobreviver é um problema de quem é vitima de alguém ou algum evento.

Para o sobrevivente sempre existe um culpado, que não seja ele. Teorizar é algo negativo na sobrevivência, o que importa são ações práticas de grande velocidade.

Um sobrevivente não pode ser responsabilizado ou punido, afinal ele esta apenas tentando sobreviver, o drama é seu maior companheiro.

Vários são os exemplos do comportamento de sobrevivência, lembrando que sobreviver significa ser superficial e até egoísta. Um ladrão é ladrão porque precisa sobreviver.

Somos um país tão sobrevivente que apenas 10% dos crimes, fraudes e furtos são punidos.  80% das novas empresas não completam seu ciclo de vida, na maioria das vezes por falta de planejamento, funcionários e gestores pouco comprometidos.

Você já deve ter ouvido falar que a lei assim como os direitos humanos apóia os ladrões. Isso não é verdade. Tanto as leis como os direitos humanos foram criados para proteger. O problema surge quando esta proteção é só para sobreviventes.

A sobrevivência é tão forte que até possuímos orgulho dela, o próprio governo e empresas privadas espalham campanhas na televisão e frases como “Sou brasileiro, não desisto nunca”, reforçando o comportamento de sobrevivência.

Não acredito que possamos esquecer da sobrevivência, mas precisamos perceber que sobreviver é apenas uma pequena parte do processo.

No Brasil uma pessoa que sobrevive por muito tempo é considerada herói. Imagine ficar tanto tempo sem evoluir, sem novas alternativas, ali estagnado apenas sobrevivendo, isso é heroísmo?

Enquanto sobrevivemos, esquecemos da força que possuímos quando organizados em grupos colaborativos.

Existem muitas teorias sobre como solucionar o problema político e social, eu particularmente acredito que ajudaria se conseguirmos diferenciar claramente o significado de sobreviver e progredir.

Muitos dos empreendedores e políticos que conversei, quando perguntado o que é progredir me definiram atos de sobrevivência como geração de progresso, citando soluções emergenciais e de caráter imediato. Exatamente da mesma forma que os nossos governantes agem diante dos problemas, assim agem os empresários e as pessoas em geral.

Se não acredita nisso, lembre do Rio de Janeiro e as diversas mortes facilmente evitadas se os equipamentos de alerta e melhor organização gerencial fossem adotadas. Mas gerenciamento é coisa para quem deseja o progresso e não apenas sobreviver. O sobrevivente já é sobrevivente justamente pela falta de planejamento, organização e comprometimento social.

Sobreviver não é algo negativo, é uma fase necessária na vida. Mas se alguém está sobrevivendo por muito tempo, talvez seja uma boa hora para repensar sua estratégia e comportamento. Participar ativamente de grupos sociais pode ser um bom início.

O comportamento sobrevivente é estimulado por muitos governos, em parte, devido ao fato do sobrevivente necessitar de pouca qualidade de vida, facilitando o trabalho dos gestores públicos.

Falamos sobre sobreviver, mas o que é progredir?

Também estou descobrindo aos poucos o significado do comportamento empreendedor voltado para o progresso, então assim como na sobrevivência, também posso estar equivocado quanto uma ou outra questão relacionada ao tema.

Dentro dos eventos que vivenciei até o momento, acredito que o progresso caminha no sentido contrário ao da sobrevivência, para progredir precisamos estar estimulados para atuar em grupos organizados e assumir responsabilidades de longo prazo. Assumir uma postuma comunitária e menos egoísta. Mas isso só é possível depois que passamos pela fase da sobrevivência em direção ao desejo de progresso.

A constatação de que uma pessoa sozinha é sobrevivente enquanto em um grupo comprometido com a qualidade social progride, me parece coerente.

Imagino que os professores, independente da área de atuação, devam estimular de forma eficiente a participação social e o perfil empreendedor de seus alunos.   Para que isso ocorra é importante que o instrutor tenha domínio sobre os dois temas citados.

Como a solução para o progresso, está em minha opinião, relacionada com a mudança de comportamento e a formação dos futuros profissionais e membros ativos da sociedade, não consigo enxergar uma resposta de curto prazo.

Acredito que programas de incentivo dentro das escolas sejam fundamentais, o difícil é convencer os administradores e diretores das necessidades emergentes que investimentos de médio e longo prazo são importantes.

Gostaria de chamar atenção para o fato do progresso só ocorrer em grupos, isso significa que só poderei progredir se meus colegas também progredirem. Em resumo, preciso estar rodeado de pessoas comprometidas com o sucesso para evoluir.

Enquanto não nos percebermos como pessoas e governantes comprometidos com o progresso, ser empreendedor neste país vai continuar sendo uma tarefa muito sofrida,  os nossos governantes vão nos consumir cada vez mais com mentiras, corrupção, altos impostos, etc.

Não importa quem elegermos como vilão ou culpado dos nossos problemas sociais, pessoais ou empresariais, se não pararmos com a cultura do sobrevivente, não existirá progresso real.

Precisamos dos nossos professores e de um programa educacional que quebre este comportamento sobrevivente, acredito que sem esta mudança, nossa sociedade estará rumando para o caos.

Não devemos esquecer que progresso só ocorre em grupos onde pessoas estão comprometidas com o sucesso e qualidade de vida, e o ato de sobreviver é basicamente um esforço mínimo para se manter vivo. Trabalhar de forma planejada e colaborativa e fazer mais que apenas o necessário pode ser trabalhoso, no entanto, parece ser o caminho do progresso pessoal e social.

O assunto é polêmico e possui diversas interpretações, algumas dramáticas e outras  reducionistas. A proposta deste texto é apresentar uma entre tantas interpretações possíveis. Independente das opiniões sobre o tema pode ser interessante pensar no assunto.  Sobreviver na individualidade ou progredir em sociedade?
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